Flanelinha


- Pronto. Deixa solto. Quatro estrofes de Drummond, chefia.
- Como é que é?
- Pra parar o carro aqui, quatro estrofes.
- Tá louco, ô, moleque? Semana passada, eu parei nesse mesmo lugar e só tive que recitar cinco versos de Bandeira!
- O preço é tabelado, chefia. A gente temos sindicato e tudo. Se fizero esse preço pro senhor, esse sujeito deve de ser denunciado. Tá vilipendiando a arte.
- Três estrofes e não se fala mais nisso, ok?
- De João Cabral?
- Peraí, não era de Drummond?
- Quatro de Drummond, três de João Cabral. Sabe como é, o homem concorreu ao Nobel…
- Tá, tudo bem, eu recito Cabral, mas…
- Recitar, não. Dizer. Cabral não gostava que recitassem.
- Ótimo. Eu digo os três versos de Cabral…
- Estrofes.
- Tá, tá, as três estrofes. Mas só quando voltar.
- Aí, não. A última vez que confiei num sujeito que disse isso, na volta, ele só me recitou um Décio Pignatari ou um Campos desses aí… Sem falar em outro que quis me fazer engolir um Arnaldo Antunes. É pagamento na hora.
- Meu filho, eu tô atrasado, não tô com nenhum verso trocado, só lembro de poesia inteira. Quando voltar, lhe recito.
- O senhor é que sabe. Agora, não me responsabilizo se aparecer uma pintura pós-modernista na lataria do seu carro…
- Tá me ameaçando, moleque?
- Eu? Eu, não, nem de arte pós-moderna eu gosto, prefiro o traço clássico, sabe? Pintura figurativa… Mas o senhor sabe como esse pessoal é. Outro dia mesmo deixaram um fusca aqui sem eu ver. Quando o dono chegou, tinham feito uma instalação em cima, colocado uns guarda-chuva no teto, uma televisão velha no lugar do capô, essas coisas. O carro não prestou pra mais nada. Foi recolhido pelo Masp.
- Essa é boa! Esse povo podia assistir televisão, tocar pagode, jogar bola, mas não, vem pra rua esmolar literatura. Nem se divertir em paz a pessoa pode mais. Aposto que eu vou te dizer esses versos, tu vai se inspirar e fazer poesia pra vender em bar.
- Vou não, chefia. É só pra minha necessidade mesmo.- Pensa que eu não sei? Tu vai vender poesia em bar, moleque.
- É não, é só pra meu consumo mesmo, eu juro.
- Tá, na volta. Já disse, na volta eu recito.
- Então, vai ter que ser Baudelaire.
- Baudelaire? Por conta de uma ou duas horas a mais?
- Ou Rimbaud, o senhor escolhe.
- Ah, não! Que absurdo! Só porque tem carro, esse pessoal pensa que a gente é rico, que decora uma “Ilíada” por ano! Fique sabendo que eu mal sei de cor o Inferno da “Divina Comédia”, meu filho! Mas, tudo bem, a culpa não é sua. Acordo fechado. Na volta, te recito Rimbaud.
- Em francês, tá, chefia?

Noite INQUIETA



2:11 a.m.
_ Ow abre a porta meu!
_Não! Quem tá aí?
_Não tem ninguém, estou sozinho...
_Você está mentindo! Eu sei, você está mentindo!
_Cara você está louco.. Abusou da farinha e agora fica com essa nóia que tem gente te seguindo!
...
3:56 a.m.
_Pára! Não faz barulho! Já está tarde e você vai acabar acordando os vizinhos!
_Não, eu sei, os “home” tão aí com você, não é?
_Meu... Por favor.. Fica calmo.. Você tá louco só isso!
_Não!
_Está sim!
_Você sempre mentindo pra mim.. Eu sei que você não está sozinho.. Por isso não vou abrir a porta!
_Por favor! Fica calmo e não faz barulho!
_Tá.. tá bom...
_Isso. Tenta se acalmar, relaxa.
_Não adianta, eu sei..
_Abre a porta e tudo se acalmar vai...
_Nunca! Eu sei que você está me enganando...
_Por que meu? Estou sozinho aqui...
_E que barulho é esse?
_Da rua, do elevador.. Sei lá!
_Não é! Tem gente aí com você!
_Cara, fica calmo, você cheirou muito só isso, você tá louco...
_Não! Eu to bem!
_Você não está bem! Fica calmo por favor!
_Nãããããooo!!
_Meu! Não faz barulho! Daqui a pouco a vizinha de baixo vai interfonar xingando! E daí vai piorar pra você!
_É, eu sabia que você ia me entregar... grande amigo!!
_Ow.. Eu estava dormindo.. acordei com uns barulhos estranhos.. e percebi que era você.. Agora estou aqui pra te ajudar. Fica calmo!
_Quem tá aí?
_Ninguém!
_Tem gente aí!
_Não tem, fica calmo, abre a porta e olha...
_Não...
_Só não faz barulho, por favor!
_Tá...
....
5:10 a.m.
_Quem tá aí?
_Ninguém meu! Acredita em mim.. Olha lá fora!
_Tem alguém na janela!
_Não tem! É só a TV do vizinho..
_Tem sim ó...
_Cara, relaxa, você tá louco...
_Me dá um cigarro?
_Aqui..
_Ah.. Vou acendeu um também... Porque pelo jeito vai demorar pra passar essa sua nóia..
_Quem tá aí?
_Já falei e vou continuar repetindo: ninguém!
_Tem alguma coisa em baixo da cama!
_Não tem, calma...
_Apaga a luz!
_Assim é pior, qualquer vulto que vê você nóia!
_Apaga!
_Ok... Mas relaxa... Você tá tenso cara!
_Quem tá aí?
_Ninguém!
_Eu vi uns caras entrando no prédio..
_Tá bom.. Mas são pessoas normais.. Fica calmo...
_Eles vão me pegar! Foi você quem chamou né?
_Não! Para de brisar meu! Você tá loco!
....
Xx:xx a.m.
E assim vai até amanhecer, ou melhor até passar a loucura.

nunca perder o senso crítico: mafalda!

AMOR? AMAR?

Quando me dizem que o amor entre duas pessoas existe sinto uma angústia: como duas pessoas podem se apaixonar perdidamente? Como viver somente com uma pessoa? E a frase mais clichê do mundo: quem inventou o amor?? É claro que foram os homens! Assim como o homem inventou Deus e todas as suas crenças...
Não existe a possibilidade de um amor livre? De uma forma nova de amar sem preocupações tolas, sem alianças, sem toda essa formalidade ridícula como namoro, noivado, casamento?
Existe! Mas poucos são capazes de promover essa balbúrdia em torno de uma questão tão conservadora de uma ordem pronta. Mudar sempre foi palavra presente no sonho humano de autonomia e liberdade. Não é preciso olhar longe, basta o espelho: cada um sabe o quanto e o que gostaria de viver diferente, com mais prazer e menos sacrifício. Mas suportamos além dos limites, imobilizados muitas vezes pelo medo da própria mudança, do desconhecido que antecede o novo.
O fato de se acreditar numa visão de mundo, numa ideologia, não basta para ter um comportamento libertário no amor, na família, nas relações afetivas. Infelizmente, parece mais fácil tentar ser livre fora de casa, longe da privacidade e exilado do corpo e alienar-se com o mortífero amor... Mas falar de amor não é fácil. Todos nós amamos. A questão está na limitação desse amor e como definir um rumo para não se perder dentro dele. Tantas perguntas, mas uma das respostas pode ser encontrada no tesão, no sexo, na forma de como cada um consegue lidar com esses questionamentos. Enfim: ame! (com parcimônia).

Tem dias...

Tem dias que a gente não quer fazer nada
Nem de pé, nem sentando, nem deitado
Nem queremos comer, dormir ou conversar
Nem mesmo ler , quanto mais escrever
Tem dias que nem o dia, nem a noite existem
Tanto faz se chove, faz sol ou está nublado
Tanto faz se ele liga, vem ou nem aparece
Tantos dias se passam e nada acontece
Tem dias que você acorda e não sabe pra que
Não sabe nada e nem por quê
Não quer isso, não quer aquilo, nada
Não sabe o que fazer e se cala
Tem dias que ninguém serve, ninguém entende
Tudo passa , fica ou retorna e ninguém sente
Tudo se parece e igual parecia
Tudo que existe, apenas existe sem poesia
Tem dias que você diz: por que dia?